UM MANIFESTO DO MICRO RADIO

Por Tetsuo Kogawa

O micro radio costumava ser um compromisso de se evitar usar transmissores de alta potencia por causa do orçamento ou da regulamentaçao. O primeiro micro radio deliberado comegou em meados dos anos 1970 na Italia. Como escreveu Felix Guattari, "des millions et des millions d'Alice en puissance", cerca de mil estaçoes de micro radios livres apareceram junto com o movimento "Autonomia" na Italia e entao influenciaram outros paises, especialmente a França. Na Australia a situaçao era diferente. Sob a esperta decisao do governo Whitlam, muitas cidades começaram a ter um novo tipo de estaçoes de radio comunitarias multi-linguisticas e multi-culturais no final dos anos 1970. No Japao, o boom das "Mini-FMs" teve inicio no começo dos anos 1980. Era um tipo totalmente diferente de micro radio, radio com transmissor de potencia literalmente micro. Era um milagre que um micro radio deste tipo realmente funcionasse como um radio. Assim, a cena de micro radio dos anos 80 era uma mistura das radios livres italianas com um novo elemento do paradoxo tecnologico.

Depois do final dos anos 1980, micro estaçoes "piratas" nos EUA entraram numa nova batalha legal contra a autoridade, por reivindicagoes populares: a Black Liberation Radio de Napoleon Williams em Illinois e tambem a Free Radio Berkeley de Stephen Dunifer ficaram famosas. Em 2000, a FCC (Comissao Federal de Comunicaçoes) lançou uma nova categoria de licença, a "LPFM" (Low Power FM, FM de baixa potencia). Isto significa que o micro radio nos EUA esta institucionalizado e tambem que aqueles que transmitem sem licença sao considerados ilegais. O sonho inicial do paraiso do microradio acabou. Mesmo um tal micro dommio e agora controlado pelo sistema. Nao seria nenhuma surpresa, pois atualmente todo o controle invade nao so o espaço individual, mas tambem o cerebral. No entanto, ainda acredito que o micro radio pode se situar em mveis diferentes do espaço institucionalizado.

O que se pretende dizer com micro? No nucleo dos movimentos, deveria ter implicado num significado diferente da mera extensao da potencia de transmissao e da area de servigo. Ele conota algo qualitativamente diferente. Ser grande ou pequeno no tamanho fisico nao e tao importante. Portanto, a mesma coisa que faziamos num micro radio poderia acontecer numa grande estaçao. O micro radio e uma alternativa as comunicaçoes globais e as midias de massas que poderia abranger o planeta com qualitativamente a mesma e padronizada informaçao. Agora que nosso espago microscopico esta sob vigilancia, o micro radio deveria prestar atençao em areas ainda mais micro, mas qualitativamente mais "micro". Para entender isso, voce deve usar experimentalmente um transmissor de muito baixa potencia. Teoricamente, pode fazer a mesma coisa com um transmissor de alta potencia, mas isso vai enganar a sua percepçao do que e o micro, por que voce tern sido circundado por numerosas transmissoes de alta potencia. Temos de usar uma especie de "suporte fenomenologico" para perceber o que sao as coisas.

A LPFM cobre ate 1 00 watts. A "FM Comunitaria" no Japao (que foi legalmente introduzida como uma "Mini FM" institucionalizada) permite 10 watts agora (no início ate 1 watt). Penso que mesmo estes mveis de potencia sao demais para o micro radio. E quanto a um watt? E quanto a menos de um watt? Uma tal estagao de radiode micro-potencia so poderia cobrir o raio de um bloco de rua ou um conjunto habitacional. Por que nao? Leon Theremin mostrou um exemplo minimo de micro radio. Sua invençao e nao so um instrumento musical, mas tambem um micro radio.

Dada a era dos varios meios globais como as comunicaçoes via satelite e a internet, o micro radio pode se concentrar em seu mais autentico territorio: o espaço da onda de radio microscopica.

Por que voce nao vai a uma estaçao de radio assim como vai a teatros? O teatro de micro radio poderia ser possivel. As ondas de radio cobrem apenas um espaço de moradia. Isso e o bastante. Tenho organizado festas de micro radio. Isto e uma tentativa de converter um espaço em algo qualitativamente diferente atraves de um micro transmissor.

Comecemos com nosso proprio espaço mínimo. A mudança num espaço minusculo poderia ressoar para espaços maiores, mas, sem mudangas microscopicas, nenhuma mudanga radical pode acontecer.

Os meios alternatives tendem a estabelecer sua propria "base caseira" fisica. Mas, como argumenta Hakim Bey, a "base caseira" alternativa de hoje so e relevante como "Zona Autonoma Temporaria (TAZ)". Ha uma outra forma: um metodo "em exilio". Depois que a WBAI ficou controlada pelo dinheiro comercial, alguns dos programas, tais como "Democracy Now" comegaram seu proprio programa com uma net. radio e um micro radio. O "Democracy Now" alugou um espago no Lower East Side de Nova York e seu programa foi transmitido como "WBAI em exilio" ("WBAI in Exile"). Penso que de certo modo o radio radical sempre fez um bom trabalho num certo tipo de "exilio": Radio Veritas, Manila nos anos 1980, e B92 nos anos 1990. A internet e basicamente um meio translocal. Diferentemente do meio impresso, o espago existe temporariamente e esta fora da posiçao geografico-fisica. Quern se importa de onde voce esta transmitindo? Voce pode manter um espago "permanente" com seus ouvintes contanto que voce e seus ouvintes concordem em se comunicar. Quando encontrei Amy Goodman do "Democracy Now" e perguntei se seu estilo de usar o low-tech (suas instalagoes e espago do estudio) poderia descender da cultura do micro radio, ela negou minha pergunta como se eu nao tivesse apreciado bastante suas atividades. E claro que nao era isso o que queria dizer. Embora a WBAI esteja voltando novamente a ser uma autentica estagao de radio radical, a forma "em exilio" de colaboragao (onde micro unidades independentes em exilio podem se ligar em conjunto) e muito mais nova e viavel. Dadas as varias tecnologias "globais" de conexao e retransmissao, o micro radio e de tamanho suficiente para uma unidade de estagao de radio.

Como um meio para cobrir areas mais extensas, as ondas de radio sao destrutivas e nao-ecologicas. A radio grande nao e mais necessaria. Cedo ou tarde, as grandes e globais tecnologias de comunicaçao serao integradas na internet. O radio, a televisao e o telefone se tornarao nodos locais para ela. Consequentemente, os globalistas descartarao tais meios existentes. Um novo tipo de terminal multirmdia conectando a internet vai surgir. Entao sera o tempo em que o radio e a televisao (e mesmo o telefone) deverao reencontrar sua propria possibilidade emancipatoria. A estaçao de micro radio vai reencontrar uma possibilidade de congregar pessoas em espagos como o teatro e o clube. Ele nao rejeitara os meios globais, mas os utilizara como meios de conexao e formagao de rede. Pelo micro-meio translocal, mesmo os meios globais poderiam se tornar polimorfos e diferentes (nao apenas nos conteudos mas igualmente no modo de fazer com que as pessoas se encontrem).

Tradução de Ricardo Rosas (24 de novembro de 2002 - 7 de maio de 2003)

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